Emis­são de I-RECs, como são cha­ma­dos, supera na pri­meira metade do ano o total de 2025 e deve cres­cer entre 15% e 20% até dezem­bro, estima o Ins­ti­tuto Totum

O mer­cado de cer­ti­fi­ca­dos de ener­gia reno­vá­vel está pas­sando ao largo das difi­cul­da­des enfren­ta­das na gera­ção de ele­tri­ci­dade via fon­tes lim­pas no Bra­sil. Só na pri­meira metade do ano, mais de 65 milhões de cer­ti­fi­ca­dos inter­na­ci­o­nais, conhe­ci­dos pela sigla IREC, foram emi­ti­dos no país, supe­rando a marca de todo 2025.

Cada cer­ti­fi­cado equi­vale a 1 mega­watt-hora de ener­gia limpa e sua aqui­si­ção visa a via­bi­li­zar a neu­tra­li­za­ção, pelas empre­sas, de emis­sões de gases de efeito estufa rela­ti­vas ao con­sumo de ener­gia elé­trica, que se enqua­dram no cha­mado “escopo 2” do pro­to­colo de con­ta­bi­li­za­ção de emis­sões.

Dados do Ins­ti­tuto Totum, res­pon­sá­vel pela emis­são local dos cer­ti­fi­ca­dos, apon­tam que, no país, nem o “cur­tail­ment” — corte de gera­ção de ener­gia reno­vá­vel por razões sis­tê­mi­cas — nem a revi­são de metas de des­car­bo­ni­za­ção por deter­mi­na­dos gru­pos eco­nô­mi­cos em nível glo­bal afe­ta­ram este mer­cado que movi­menta, em con­tas pre­li­mi­na­res, cerca de R$ 200 milhões por ano no país.

“Os núme­ros dos últi­mos cinco anos demons­tram que o mer­cado bra­si­leiro de I-RECs segue em franca expan­são, impul­si­o­nado pela com­bi­na­ção entre cres­ci­mento da gera­ção reno­vá­vel, metas cor­po­ra­ti­vas de sus­ten­ta­bi­li­dade e demanda cres­cente por com­pro­va­ção do con­sumo de ener­gia limpa”, ava­lia o dire­tor-pre­si­dente do Ins­ti­tuto Totum, Fer­nando Gia­chini Lopes.

Ele explica que, em tese, como os I-RECs são emi­ti­dos com base na ener­gia efe­ti­va­mente gerada, o corte de reno­vá­veis reduz o poten­cial de emis­são de cer­ti­fi­ca­dos. Na prá­tica, porém, isso não tem se refle­tido nos negó­cios.

“As empre­sas não são obri­ga­das a colo­car todas as suas usi­nas para gerar cer­ti­fi­ca­dos. Ela coloca a quan­ti­dade com­pa­tí­vel com a demanda. Com os cor­tes, houve a inclu­são de mais usi­nas, mais do que o cres­ci­mento nor­mal que se tinha no mer­cado. As empre­sas tive­ram que incluí-las e é por isso que, ape­sar dos cor­tes, não houve dimi­nui­ção. Até vai aumen­tar cerca de 15%, 20%”, cal­cula para este ano con­si­de­rando a sazo­na­li­dade do segundo semes­tre.

A visão é refe­ren­dada pelo dire­tor de Tra­ding da Comerc Ener­gia, Fel­lipe D’Alcan­tara. A com­pa­nhia afirma ter comer­ci­a­li­zado cerca de 36 milhões de I-RECs no acu­mu­lado dos últi­mos cinco anos. Em 2023, lan­çou junto à então aci­o­nista majo­ri­tá­ria Vibra Ener­gia uma mesa de ope­ra­ções de cré­di­tos de car­bono para tran­sa­ções espe­cí­fi­cas des­tes mer­ca­dos.

“Até o momento, a Comerc ava­lia que o efeito sobre a dinâ­mica geral do mer­cado bra­si­leiro de I-RECs tem sido limi­tado. Isso se deve ao per­fil da matriz elé­trica, com forte pre­sença de fon­tes reno­vá­veis, e a uma oferta de cer­ti­fi­ca­dos
que ainda se man­tém supe­rior à demanda”, diz.

Em rela­ção às metas de des­car­bo­ni­za­ção, o exe­cu­tivo admite que, em alguns casos, as empre­sas que as esta­be­le­ce­ram em res­posta a pres­sões exter­nas, como exi­gên­cias da cadeia de valor ou de cli­en­tes, podem rever pra­zos e pri­o­ri­da­des. “Ainda assim, não obser­va­mos uma retra­ção rele­vante entre cli­en­tes com agen­das cli­má­ti­cas mais con­so­li­da­das. O que se per­cebe é uma maior sele­ti­vi­dade: as empre­sas estão bus­cando solu­ções com melhor ade­rên­cia às suas metas, maior ras­tre­a­bi­li­dade e con­sis­tên­cia com suas nar­ra­ti­vas de sus­ten­ta­bi­li­dade”, afirma.

Outra par­ti­ci­pante do mer­cado, a Axia Ener­gia lem­bra ainda que, tendo em vista que seu port­fó­lio de gera­ção de ele­tri­ci­dade é majo­ri­ta­ri­a­mente com­posto por usi­nas hídri­cas, “tem-se uma dinâ­mica de fle­xi­bi­li­dade ope­ra­tiva e vasto port­fó­lio, capaz de aten­der à demanda de mer­cado”, diz a gerente de cer­ti­fi­ca­dos da com­pa­nhia, Ceci­lia Essin­ger. Além das fon­tes eólica, hídrica e solar, a bio­massa tam­bém é con­si­de­rada na cer­ti­fi­ca­ção.

A empresa, que gerou 11,9 milhões de I-RECs só em 2025, afirma ainda que o mer­cado tem per­ce­bido novos entran­tes, prin­ci­pal­mente de com­pa­nhias peque­nas e médias. “Isso pode estar asso­ci­ado à neces­si­dade de aten­der expec­ta­ti­vas de for­ne­ce­do­res, cli­en­tes e demais ‘sta­kehol­ders’, gerando uma exter­na­li­dade posi­tiva sobre a per­cep­ção de sua marca”, com­pleta a gerente.

Ape­sar do cená­rio posi­tivo, o pre­si­dente da Totum cita o ende­re­ça­mento do “cur­tail­ment” e a expan­são da infra­es­tru­tura elé­trica como “temas cen­trais para garan­tir que o setor con­ti­nue sua tra­je­tó­ria de cres­ci­mento nos pró­xi­mos anos”. Ele aponta ainda a revi­são, em anda­mento, do pro­to­colo de emis­sões (GHG Pro­to­col) para o escopo 2 como tema de aten­ção.

“As pro­pos­tas em dis­cus­são indi­cam uma ten­dên­cia de for­ta­le­ci­mento dos cri­té­rios de ras­tre­a­bi­li­dade dos atri­bu­tos reno­vá­veis”, aponta. Segundo ele, a nova abor­da­gem inclui a exi­gên­cia de que cer­ti­fi­ca­dos como os I-RECs este­jam vin­cu­la­dos ao mesmo mer­cado elé­trico (sub­mer­cado ou área de entrega com­pa­tí­vel) do con­sumo repor­tado, além da intro­du­ção do con­ceito de pari­dade horá­ria.

“Caso essas mudan­ças sejam imple­men­ta­das, haverá impac­tos sig­ni­fi­ca­ti­vos na estra­té­gia de aqui­si­ção de atri­bu­tos ambi­en­tais, na for­ma­ção de pre­ços dos cer­ti­fi­ca­dos e na forma como são repor­ta­das as emis­sões de Escopo 2. Esse movi­mento reforça a impor­tân­cia de mer­ca­dos robus­tos de ras­tre­a­bi­li­dade, como o I-REC, e pode aumen­tar a demanda por cer­ti­fi­ca­dos com maior gra­nu­la­ri­dade tem­po­ral e geo­grá­fica”, con­clui.

Fonte Valor Econômico

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