A descarbonização corporativa vem deixando de ser apenas uma agenda de eficiência operacional e passa, cada vez mais, a incorporar instrumentos de mercado capazes de conectar oferta física, atributo ambiental e relato de emissões. Isso já ocorreu de forma muito visível na eletricidade renovável e tende a avançar para outros vetores energéticos e insumos industriais.
Não por acaso, o próprio GHG Protocol consolidou a lógica do market-based reporting para o escopo 2 e já existe proposição de relato exclusivo por meio escolha de compra, envolvendo os três escopos.
Em outras palavras, o mercado caminha para sistemas em que a descarbonização não será relatada apenas pelo que foi fisicamente consumido, mas também pelas escolhas contratuais e pelos instrumentos confiáveis de rastreabilidade adotados pelas empresas.
Esse movimento ajuda a explicar por que instrumentos de mercado vêm ganhando tanta relevância. Eles não substituem a redução física de emissões nem resolvem, por si sós, todos os desafios de integridade ambiental. Mas permitem alocar atributos, organizar cadeias de custódia, evitar dupla contagem e dar previsibilidade a mercados em que a molécula, o elétron ou o insumo renovável se misturam fisicamente a produtos equivalentes de origem fóssil.
É exatamente esse tipo de solução que tende a ganhar importância num mundo em que a pressão por reporte auditável e por escolhas contratuais transparentes será cada vez maior.
No caso da eletricidade, o exemplo mais conhecido é o I-REC. Seu mérito foi oferecer um padrão simples e confiável para rastrear atributos ambientais em mercados nos quais a segregação física da energia é, em regra, impossível. O sucesso do instrumento decorre justamente de sua capacidade de combinar governança, rastreabilidade, unicidade do certificado e clareza de uso para o consumidor final.
Isso permitiu que a lógica da energia renovável contratada deixasse de ser apenas um conceito e passasse a ser um ativo utilizável em relatos, estratégias corporativas e compromissos voluntários.
No gás renovável, o mesmo raciocínio se consolidou com o Gas-REC e, em escala internacional, com o I-Track(G). Os certificados de biogás foram concebidos para resolver um problema objetivo: como permitir que o atributo ambiental do biometano seja rastreado e alocado ao consumidor final mesmo em contextos de mistura física em gasodutos ou em arranjos logísticos mais complexos.
Já o I-Track(G) nasce com a ambição de levar essa lógica a um padrão internacional para biogás e biometano, preservando governança, rastreabilidade e prevenção de dupla contagem em diferentes jurisdições.
É nesse contexto que surgem novos instrumentos de mercado com enorme potencial. Um deles é o CO2-REC, voltado ao rastreamento dos atributos ambientais do CO2 renovável. O CO2-REC é um sistema de rastreamento do dióxido de carbono de origem biogênica, proveniente, por exemplo, de fermentação industrial, digestão anaeróbica, oxidação controlada de biomassa, captura de gases ou outras tecnologias reconhecidas.
O ponto central aqui é simples e poderoso ao mesmo tempo: o CO2renovável é quimicamente a mesma molécula do CO2 fóssil. Por isso, sem certificação e rastreabilidade, o mercado tende a tratar ambos como equivalentes, perdendo a capacidade de reconhecer a origem biogênica e o benefício ambiental associado.
As aplicações desse CO2 renovável são amplas e muito concretas: indústria de bebidas, no agronegócio e em estufas, na indústria química e bioquímica, no mercado de gases industriais verdes, na indústria de energia e até em arranjos relacionados ao mercado de carbono.
A certificação ajuda justamente porque separa, no plano informacional e contratual, aquilo que fisicamente é indistinguível. Em mercados desse tipo, a lógica do atributo ambiental rastreado tende a ser muito mais relevante do que qualquer tentativa de segregação física absoluta.
Outro instrumento promissor é o BioGLP-REC, voltado ao GLP renovável. O Bio GLP pode ser produzido a partir de matérias-primas renováveis por rotas que transformam biomassa, via gaseificação e síntese química, ou óleos vegetais, via hidrogenação catalítica, nos gases propano e butano.
Mais uma vez, trata-se de moléculas quimicamente idênticas às do GLP fóssil, mas com característica biogênica. Isso faz com que a certificação seja especialmente importante: sem ela, o mercado não consegue distinguir de forma auditável a origem renovável do produto.
No caso do Bio GLP, a utilidade do modelo de certificação é ainda mais evidente porque a logística real tende a envolver mistura, compartilhamento de infraestrutura e, em muitos casos, impossibilidade de preservação física da identidade do produto ao longo de toda a cadeia. Por isso, a lógica de book and claim e de rastreamento de atributos ambientais se mostra particularmente adequada.
O BioGLP-REC foi concebido exatamente para rastrear esses atributos e permitir que consumo industrial, comercial, residencial ou de transporte possa ser associado a uma origem renovável de forma documentada e verificável.
O que se observa, portanto, é um processo claro de ampliação do repertório de instrumentos de mercado para descarbonização. Primeiro a eletricidade renovável ganhou escala com instrumentos como o I-REC. Depois o gás renovável avançou com o Gas-REC e, mais recentemente, com o I-Track(G) e CGOB.
Agora, começam a ganhar forma instrumentos voltados a moléculas e produtos adicionais, como CO2 renovável e Bio GLP renovável. A tendência é que esses novos instrumentos sejam progressivamente implementados no Brasil e no mundo e que, com o amadurecimento do mercado, passem a ser tão naturais e utilizados quanto hoje já são o I-REC e os certificados de gás renovável.
O mercado de atributos ambientais ainda está se expandindo, e tudo indica que estamos apenas no começo dessa nova etapa.
Fonte: Brasil Energia
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