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Resistem a cortes e mantêm alta

Ludmylla Rocha
De São Paulo

O mercado de certificados de energia renovável está passando ao largo das dificuldades enfrentadas na geração de eletricidade via fontes limpas no Brasil. Só na primeira metade do ano, mais de 65 milhões de certificados internacionais, conhecidos pela sigla I-REC, foram emitidos no país, superando a marca de todo 2025.

Cada certificado equivale a 1 megawatt-hora de energia limpa cuja aquisição visa a viabilizar a neutralização, pelas empresas, de emissões de gases de efeito estufa relativas ao consumo de energia elétrica, que se enquadram no chamado “escopo 2” do protocolo de contabilização de emissões.

Dados do Instituto Totum, responsável pela emissão local dos certificados, apontam que, no país, nem o “curtailment” − corte de geração de energia renovável por razões sistêmicas − nem a revisão de metas de descarbonização por determinados grupos econômicos têm sido bailes para este mercado que movimenta, em contas preliminares, cerca de R$ 200 milhões por ano no país.

“Os números dos últimos cinco anos demonstram que o mercado brasileiro de I-RECs segue em franca expansão, impulsionado pela combinação entre crescimento da geração renovável, metas corporativas de sustentabilidade e demanda crescente por comprovação do consumo de energia limpa”, avalia o diretor-presidente do Instituto Totum, Fernando Guglinski Lopez.

Ele explica que, em tese, como os I-RECs são emitidos com base na energia efetivamente gerada, o corte de renováveis reduz o potencial de emissão de certificados. Na prática, porém, isso não tem se refletido nos negócios.

“As empresas não são obrigadas a colocar todas as suas unidades para gerar certificados. Ela coloca a quantidade compatível com a demanda. Com os cortes, houve inclusive de mais usinas, mais do que o crescimento normal que se tinha no mercado. As empresas viram que incluir-las é por isso que, apesar dos cortes, não houve diminuição. Até vai aumentar este ano de 15%, 20%, calcula para tese ao considerando a sazonalidade do segundo semestre.

A visão é referendada pelo diretor de Trading da Comerc Energia, Felipe D’Alcantara. A companhia administra ter comercializado cerca de 36 milhões de I-RECs no acumulado dos últimos cinco anos. Em 2023, lançou junto à então otimista maioria Vibra Energia uma mesa de operações de créditos de carbono para transações específicas destes mercados.

“Até o momento, o curtailment que o efeito sobre a dinâmica geral do mercado brasileiro de I-RECs tem sido limitado. Isso se deve ao perfil da matriz elétrica, com forte presença de fontes renováveis, e a uma oferta de certificados que ainda se mantém superior à demanda”, diz.

Em relação às metas de descarbonização, o executivo admite que, em alguns casos, as empresas que as estabeleceram em resposta a pressões externas, como exigências da cadeia de valor ou de clientes, podem rever prazos e prioridades. “Ainda assim, não observamos uma retração relevante entre clientes com agendas climáticas mais consolidadas. O que se percebe é uma maior resiliência: as empresas estão buscando soluções com melhor aderência às suas metas, maior rastreabilidade e consistência com suas narrativas de sustentabilidade”, afirma.

Outra participante do mercado, a Axia Energia lembra ainda que, tendo em vista que seu portfólio de geração de eletricidade é majoritariamente composto por usinas hídricas, “tem-se uma dinâmica de flexibilidade operativa e vasto portfólio, capaz de atender à demanda de mercado”, diz a gerente de certificados da companhia, Cecilia Essinger.

Além das fontes eólica, hídrica e solar, a biomassa também é considerada na certificação.

A empresa, que gerou 11,9 milhões de I-RECs só em 2025, afirma ainda que o mercado tem percebido novos entrantes, principalmente de companhias pequenas e médias. Isso pode estar associado à necessidade de atender expectativas de fornecedores, clientes e demais stakeholders, gerando uma externalidade positiva sobre a percepção de sua marca, completa a gerente.

Apesar do cenário positivo, o presidente da Totum cita o entendimento do “curtailment” e a expansão da infraestrutura elétrica como “temas centrais para garantir que o setor continue a trajetória de crescimento nos próximos anos”. Ele aponta ainda a revisão, em andamento, do protocolo de emissões (GHG Protocol) para o escopo 2 como tema de atenção.

“As propostas em discussão indicam uma tendência de fortalecimento dos critérios de rastreabilidade dos atributos renováveis”, aponta ele, a nova abordagem poderia incluir a exigência de certificados como os I-RECs estarem vinculados ao mesmo mercado de energia (submercado ou área de entrega compatível) do consumo reportado, além da introdução do conceito de paridade horária.

“Caso essas mudanças sejam implementadas, haverá impactos significativos na estratégia de aquisição de atributos ambientais, na forma de preços dos certificados e na forma como são reportadas as emissões do Escopo 2. Esse movimento reforça a importância de mercados robustos de rastreabilidade, como o I-REC, e pode aumentar a demanda por certificados com maior granularidade temporal e geográfica”, conclui.


Texto do gráfico

Mercado de I-RECs no Brasil
Volume de emissões de certificados de energia renovável no país

AnoEmissões (em milhões)
20204,03
20219,21
202221,87
202337,83
202450,88
202564,75
2026*65,02

Aumento (em %)

Ano%
2021128,4
2022137,4
202373,0
202434,5
202527,3
2026*0,4

65 mi de I-RECs foram emitidos até junho

* Até junho de 2026.
Fonte: Elaboração própria com informações do Instituto Totum. Valores até junho de 2026. Valor percentual em relação ao mesmo período do ano anterior.

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